quinta-feira, 30 de julho de 2026

PARECE VOCÊ


CONHEÇA A VERDADEIRA HISTÓRIA DESSE LUXUOSO CARRO O "AERO WILLYS'

O MONARCA DA AURORA


Lá vem ele, o gigante de crista de brasa, Com passos de ferro que tremem o chão.

Não é apenas ave que habita uma casa, É um bicho de lenda, um pequeno dragão.

Suas penas são mantos de seda e de ouro, Refletindo o brilho de um sol matinal, Dono do pátio, guardião do tesouro, Um rei sem coroa, de porte real.

Quando estica o pescoço pro azul do infinito, O mundo silencia pra ouvir seu clamor, Não é um canto, é um brado, um grito, Que acorda a semente e desperta a flor.

As asas imensas, como velas de barco, Batendo o compasso de um tempo ancestral, Seu peito estufado desenha um arco, No palco de terra do seu quintal.

Ó galo gigante, de olhar justiceiro, Que mira o horizonte com tal prontidão, És a alma viva de todo o terreiro, O dono do tempo e do meu coração.

 

Autor : David Stormy


O TREM DE FOGO

O trem de fogo corta a noite escura,

Serpente viva de aço e clarão,
Rasga os trilhos do tempo sem censura,
Levando sonhos, dores e paixão.
Seu apito é um grito antigo,
Eco de carvão e solidão,
Chama que aquece o destino
De quem parte sem saber o chão.
As rodas batem como um coração apressado,
Tum-tum… tum-tum… em combustão,
Cada vagão carrega um passado
E um futuro embrulhado em ilusão.
O trem de fogo não pede licença,
Ele passa — intenso, voraz,
Queima a saudade, a crença,
E deixa cinzas onde a alma jaz.
Mas também ilumina caminhos,
Como tocha em noite sem luar,
Mostra que até nos trilhos espinhos
Há coragem para continuar.
Quando some no horizonte em brasa,
Fica no ar um cheiro de eternidade:
O trem de fogo nunca se apaga,
Ele vive na memória da humanidade.

FUI PARA O MEU QUARTO

  Fui para o meu quarto.

Ali, onde o mundo silencia e a alma fala baixo.
Fechei a porta não para fugir,
mas para me encontrar.
O quarto me acolheu com suas paredes cansadas de ouvir segredos,
com a cama que conhece meus sonhos e meus medos,
com a janela que deixa entrar a luz quando o coração pede esperança.
Fui para o meu quarto
para organizar pensamentos bagunçados,
para deixar cair as lágrimas que não pedem explicação,
para respirar fundo e lembrar quem eu sou.
É nesse pequeno espaço
que o tempo desacelera,
que a dor se transforma em aprendizado
e o silêncio vira companhia.
Fui para o meu quarto
e voltei um pouco mais forte,
um pouco mais inteiro,
porque às vezes é no recolhimento
que a gente se reconstrói.

Autor : David Stormy

PLANETA CONSCIÊNCIA


Eu já vi muita coisa, boa e ruim. Viajei muito e conheci muitos planetas. Em uma dessas viagens, conheci um planeta chamado “Consciência” e, lá, descobri uma aldeia futurista construída — adivinhem por quem? — por garotos brasileiros! Eles me contaram muitas coisas. Abandonaram o planeta Terra. Seus pais os procuram até hoje, mas, infelizmente, eles não voltarão mais para casa. Eles não conseguiam entender o povo daqui da Terra. Extermínio de pessoas em nome de Deus! Bebês sendo descartados em córregos e latas de lixo.

Rapazes da classe média, sustentados por pais que ocupam cargos de grande importância, saem pelas ruas e avenidas, na calada de noites quentes, a fim de “aprontar”. Queimam índios e sem-teto, atiram em placas de trânsito, espancam gays e negros etc. Uma emissora de TV contraditória chega a oferecer um milhão de reais como prêmio a um grupo de jovens para ficarem se expondo, tomando álcool, fumando e mostrando suas intimidades para telespectadores desmotivados, que precisam preencher seu tempo ocioso. Em outra ocasião, a mesma emissora faz campanha para arrecadar fundos para grupos carentes?.
- Estranho! — disseram as crianças do planeta “Consciência”.
As crianças do planeta “Consciência” me contaram que, em um local oculto da Terra, elas se reuniam todos os dias a fim de desenvolver uma nave espacial cujo combustível era o saber. E, em um dia marcado, deram a partida na nave e viajaram rumo ao desconhecido, até encontrar o planeta “Consciência”. Informaram-me que ainda mantêm contato com o planeta Terra, mas somente para recolher outras crianças “conscientes”.
O último garoto que falava comigo complementava o relato dizendo que, lá, eles não se comunicavam mais por palavras, e sim por telepatia — fim da hipocrisia. Ele conversava comigo em meio à penumbra e, então, eu lhe pedi que se aproximasse mais. Meu Deus! Quando vi o seu rosto, levei um choque: o garoto... tinha a minha cara...
Autor : David Stormy

O ÚLTIMO BONDE

A última viagem do bonde

Londres, Paris, Rio de Janeiro ou São Luís, o desenho do destino será sempre o mesmo. Antes, anos que marcaram séculos, um dos mais tradicionais e poéticos meios de transporte.

Hoje, o romantismo da saudade. A falta que faz em algumas cidades. Outras, mantiveram as viagens dependuradas nas soleiras e a figura central do Motorneiro.

Até onde se sabe, em Londres, uma das primeiras ruas do Centro nobre a receber a circulação os bondes, foi a Pentonville Road, onde os primeiros testes aconteceram em 1883. Antes, haviam sido “puxados a cavalo”. Testados e aprovados, os bondes elétricos de Londres circularam de 1901 até 1952, quando foram extintos. Voltaram a circular a partir do ano 2000 e distribuem tradição e eficácia até hoje.

Em Paris, a Rue de Rivoli, próxima ao Louvre foi a premiada com a beleza desse meio de transporte.

Mas, os Arcos da Lapa, na área central do Rio de Janeiro continuam levando passageiros e turistas curiosos para Santa Teresa, onde hoje, infelizmente, vive o domínio dos traficantes de drogas.

Via de bondes montada sobre os Arcos da Lapa no Rio de Janeiro

Eufrásio era o nome dele. Figura esguia, descendente de família portuguesa. Em Lisboa aprendeu com o avô a se intrometer com o transporte público e a condução de bondes. Garantia que o avô dirigira um bonde puxado por duas parelhas de bons cavalos.

Em São Luís, foi morador do bairro Anil, por anos servido por bondes, inclusive bondes puxados a cavalos.

Bom conversador, relembrava as épocas áureas de Lisboa, onde dizia pretender voltar – ainda que fosse para ser enterrado.

Mas, voltando à Londres. Ali na terra da Rainha Elizabeth, Eufrásio seria Motorman, Tram driver ou ainda Streetcar operator/driver, designação distante da poesia que impregnamos na saudade.

Nas proximidades do Louvre, Seu Eufrásio não passaria de um Wattman ou Conducteur de tramway a desfilar pelas ruas centrais da Cidade Luz.

E, se algum dia retornasse à Lisboa, voltaria a ser conhecido como Guarda-freio ou Condutor de elétrico. Mas, distante algumas horas de Lisboa, no bairro do Anil, em São Luís, jamais passaria do simples Seu Eufrásio.

Seu Eufrásio vestido com “roupa de gala”

Entretanto, o destino das pessoas é desenhado e escrito ainda no ventre materno. Tudo que fará e viverá já está decidido. Assim, um misto de homenagem com decepção que seria guardada até a volta ao barro – e nunca para Lisboa – estava reservado para Seu Eufrásio.

A homenagem: conduzir o último bonde em circulação em São Luís, não para Lisboa, mas para o “cemitério” localizado no campus da UEMA, onde jaz. E de lá nunca mais sairá.

A decepção: nunca mais teria a chance de olhar as palmeiras onde ainda ecoam os cânticos dos sabiás na Praça Gonçalves Dias, um dos trajetos oficiais garantidos dos bondes.

O último bonde “depositado” como ferro velho no campus da UEMA

Hoje, diferentemente de Londres, Paris e Lisboa, São Luís que está inserida de forma mentirosa no combate à poluição e teve representante na COP30 dispensou esse transporte “despoluidor” e sepultou definitivamente o sonho do Seu Eufrásio, de um dia retornar em triunfo a Lisboa.

O emaranhado de trilhos que se estendiam do Anil e levavam ao Centro Histórico com passagens pela Praça Gonçalves Dias, já não nos permitem escutar o cântico dos sabiás.

Os trilhos estão soterrados pelo modernismo do asfalto, o sabiá parou de cantar, o último bonde está sendo destruído pela ferrugem e Seu Eufrásio, só Deus sabe onde está.

Os trilhos por onde passaram vidas, são hoje apenas lembranças

OBSERVAÇÃO: Fotos meramente ilustrativas – nada de reais.

MÚSICA, DESTRÓI CÉLULAS CANCERÍGENAS!

  Pesquisas recentes indicam que ondas sonoras podem produzir efeitos físicos sobre células, indo além da simples percepção auditiva. Estudos conduzidos pela biofísica Marcia Alves Marques Capella, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontam que determinadas frequências musicais podem influenciar a organização e a sobrevivência celular in vitro, mesmo em células incapazes de “ouvir”.

Em experimentos iniciais, culturas celulares expostas à Sinfonia nº 5 e a Atmospheres apresentaram respostas biológicas específicas, enquanto outras composições não geraram alterações mensuráveis. Os efeitos são interpretados como resultado da interação entre ondas mecânicas e sistemas vivos, um fenômeno investigado nos campos da biofísica e da mecanotransdução.
Embora ainda não exista aplicação clínica direta, os achados reforçam que células podem reagir a estímulos físicos variados, e o som pode estar entre esses fatores moduladores.


Ludwig van Beethoven foi um compositor e pianista alemão. Ele é uma das figuras mais reverenciadas na história da música ocidental; suas obras estão entre as mais executadas do repertório da música clássica e abrangem a transição do período clássico para a era romântica neste gênero musical.Quer saber mais sobre Beethoven? Então clique AQUI


CHUCK BERRY - ROLL OVER BEETHOVEN

Chuck Berry interpreta "Roll Over Beethoven" no BBC Television Theatre, em Londres, na quarta-feira, 29 de março de 1972. Acompanhado por Dave Harrison na bateria, Billy Kinsley no baixo, Jimmy Campbell na guitarra e Michael Snow no piano.Quer saber mais sobre o Chuck Berry? Então clique AQUI

terça-feira, 28 de julho de 2026

DUAS CANÇÕES E UM CRIME

 


 Escrevo no dia 23 de março de 2025. Nesta manhã de muitas nuvens no céu de Brasília, acordei relativamente cedo para um domingo e fiz o que milhões de pessoas fazem no mundo inteiro: verifiquei mensagens e novidades das redes sociais no celular.

Mal havia começado a rolar a timeline do Twitter (que ainda não me acostumei a chamar de X) quando me deparei com uma postagem do famoso Joaquim Teixeira, fazendo um comentário elogioso sobre a música “My Mistake”, dos Pholhas (os leitores que são jovens há mais tempo certamente conhecem bem a banda paulista que fez sucesso nos anos 1970, tocando canções em inglês).

No vídeo, as legendas chamavam a atenção para a trágica letra da canção. Um lamento que em nada combina com as circunstâncias nas quais tanta gente a ouviu, às vezes dançando “de rosto colado”, nas baladas românticas da adolescência. A certa altura, diz a letra:

Eu fui mandado para a prisão (I was sent to prison)
Por ter assassinado minha esposa (For having murdered my wife)
Porque ela estava saindo com outro (Because she was living with him)
Eu perdi a cabeça e atirei nela (I lost my head and shot her)

É incrível que uma canção com essa letra tenha servido de trilha sonora para tantos romances juvenis! Mas quem prestava atenção a isso naquele tempo?
Hoje, ao ouvi-la, pensei em algo que jamais havia pensado antes: o fato de “My Mistake” fazer parte do primeiro LP dos Pholhas, “Dead Faces”, lançado em 1973, ou seja, apenas alguns anos depois que Jimi Hendrix gravou a versão mais conhecida da música “Hey Joe” (1966).

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Tem a ver que, enquanto “My Mistake” conta a história de um homem que está cumprindo pena, por um crime passional, a letra de “Hey Joe” consiste em um diálogo, durante o qual um dos personagens, também um homem que se diz traído, atenta igualmente contra a vida da mulher:

– Ei, Joe, aonde você vai com essa arma na mão? Ei, Joe, eu perguntei aonde você vai com essa arma na mão? (Hey Joe, where you goin’ with that gun in your hand? Hey Joe, I said, where you goin’ with that gun in your hand?)

– Eu vou atirar na minha mulher. Porque eu a peguei transando com outro homem. O que não é nada bom! (I’m goin’ down to shoot my old lady. You know I caught her messin’ ‘round with another man. Huh, and that ain’t too cool)

– Ei, Joe, eu ouvi você atirar na sua mulher! Você atirou nela! É, atirou! (Hey Joe, I heard you shot your woman down. You shot her down, down)

– Sim, eu atirei nela. Eu a peguei transando. Transando por aí. (Yes, I did, I shot her. You know I caught her messin’ ‘round. Messin’ ‘round town)

Sem dúvida, não seria nenhuma surpresa se viéssemos a saber que Hélio Santisteban teria se inspirado em “Hey Joe” para compor “My Mistake”, como uma espécie de segunda parte da história.

A relação de continuidade entre os dois enredos é plenamente viável, mesmo se considerando que, embora o personagem de “My Mistake” afirme ter sido condenado por assassinar a esposa (For having murdered my wife), o Joe de Jimi Hendrix não confessa diretamente a morte, dizendo apenas: “E eu apontei a arma para ela e atirei” (And I gave her the gun and I shot her).

É o outro personagem da trama quem diz:

– Você abateu ela, sim! (You shot her down to the ground, yeah!)

Na verdade, não é de admirar que, ao descrever sua conduta, o autor do delito o faça por meio da expressão “Eu atirei”, em vez de “Eu a matei”. Desse modo, ele evita confessar – eventualmente até para si mesmo – que tinha a intenção de matar, por mais óbvia que seja a intenção de quem aponta uma arma de fogo para alguém e aciona o gatilho.

Isso não impede, porém, que ele tenha receio de ser condenado, o que fica claro na seguinte fala do personagem:

– Nenhum carrasco vai colocar uma corda no meu pescoço. (Ain’t no hangman gonna he ain’t gonna put a rope around me).

Além disso, em ambas as canções essa resistência em confessar a intenção de praticar o crime vem seguida de uma tentativa de justificar a sua ação criminosa, alegando que o ato teria sido uma reação ao fato de ter sido traído.

Comportamento previsível de alguém que cometeu um ato que gera repúdio social: negar o próprio ato, ao mesmo tempo que tenta atribuir à vítima a culpa por ele. É como se o autor do crime dissesse: “Atirei, mas não estava pensando em matá-la. Atirei, apenas em reação à ofensa causada pela traição”.

No passado, essa desculpa foi amplamente usada em tribunais, com a tese que ficou conhecida como “legítima defesa da honra”. O caso mais famoso no Brasil, envolvendo essa tese, foi o do assassinato de Ângela Diniz pelo marido, o empresário Doca Street, em 1976. Em 1979, ele chegou a ser condenado pelo homicídio da esposa a apenas dois anos de prisão. Em 1981, em novo júri, a condenação foi fixada em 15 anos.

O julgamento gerou ampla repercussão no meio jurídico, mas só em agosto de 2023 a tese da “legítima defesa da honra” seria banida das defesas criminais no Brasil, com o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 779/DF. A tese da “defesa da honra” foi assim excluída “do âmbito do instituto da legítima defesa”, podendo gerar a nulidade do julgamento no qual venha a ser alegada.

Voltando às canções, dá um certo conforto imaginar que “My Mistake” possa ser a continuação de “Hey Joe”. Apesar de em “Hey Joe” o personagem dizer que fugiria para o México (I’m goin’ way down south. Way down to Mexico way), em “My Mistake” ele acaba preso e condenado, como narra o aqui já referido verso “Eu fui mandado para a prisão (I was sent to prison)”.

Embora seja uma história triste, pelo menos o autor do crime não ficaria impune. Ao contrário, o cumprimento da pena o teria levado a refletir sobre seus atos, reconhecendo seu erro e prometendo uma reforma pessoal:

– Esta foi minha história no passado. E eu vou me reformar. Eu estou pagando pelo meu erro. E jamais serei o mesmo homem novamente. (This was my story in the past. And I’ll go to reform myself. I am paying for my mistake. I will never be the same man again).

Eis aí um aspecto importante do Direito Penal: levar o indivíduo que comete o crime a se arrepender dos seus atos, tomando a decisão de não mais cometê-los. Como também é importante para desestimular outras pessoas a cometerem os mesmos crimes.

Penso que a sanção penal deve sempre considerar esses dois aspectos, para evitar que o sentimento de impunidade seja difundido na sociedade. Muita gente que estuda o assunto fala em ressocialização do condenado, mas, particularmente, penso que essa desejada ressocialização, quando ocorre, é como consequência de uma reforma pessoal, como diz a música, não por uma ação específica do Estado.

Evidentemente que nem a reforma pessoal, nem tampouco a ressocialização, são possíveis no caso da pena de morte, também referida pelo personagem de “Hey Joe”. Por isso não a vejo com bons olhos, embora reconheça que há bons argumentos a favor dela.

O que mais importa, ao meu sentir, é que haja equilíbrio, evitando-se tanto penas irrisórias como cruéis, buscando-se a proporcionalidade entre crime e castigo (Viva, Dostoiévski!).

Como ensina Cesare Beccaria, no seu clássico “Dos Delitos e Das Penas”, “os meios que a legislação emprega para impedir os crimes devem, pois, ser mais fortes à medida que o delito é mais contrário ao bem público e pode tornar-se mais comum. Deve. pois, haver uma proporção entre os delitos e as penas”. E completa: “Se se estabelece um mesmo castigo, a pena de morte por exemplo, para quem mata um faisão e para quem mata um homem ou falsifica um escrito importante, em breve não se fará mais nenhuma diferença entre esses delitos”.

Partindo para o fechamento do texto, rio de mim mesmo ao constatar que uma simples canção (em um post do Joaquim Teixeira) me arrastou para todas essas reflexões.

Como já passa do meio-dia, só me resta citar outra canção, sobre a qual não devo entrar em detalhes agora: “Na hora do almoço”, de Antônio Carlos Belchior.

Seguem os vídeos legendados de “Hey Joe” e “My Mistake”.

By : Marcos Mairton



DISCO DE VINIL - COMO FUNCIONA?

 


Como funciona o disco de vinil?

O disco de vinil é um dos meios mais clássicos e fascinantes de reprodução sonora. Seu funcionamento é totalmente analógico, baseado em princípios físicos e mecânicos, o que o torna muito diferente das tecnologias digitais atuais.

🔍 A gravação do som no vinil

O som começa como uma onda sonora no estúdio. Essa onda é transformada em vibrações mecânicas e, durante a gravação, um estilete especial esculpe sulcos microscópicos em espiral na superfície do disco.
Esses sulcos variam de forma e profundidade conforme a intensidade e a frequência do som original.

  • Sons graves → sulcos mais largos

  • Sons agudos → sulcos mais estreitos e rápidos

Tudo o que ouvimos está “desenhado” fisicamente ali.

💿 A reprodução do som

Quando o disco gira na vitrola (geralmente a 33⅓ ou 45 rotações por minuto), a agulha percorre esses sulcos.

  1. A agulha (ou estilete) vibra ao acompanhar as irregularidades do sulco.

  2. Essas vibrações são transmitidas para o cartucho, que converte o movimento mecânico em sinal elétrico.

  3. O sinal elétrico é amplificado.

  4. O amplificador envia o som para os alto-falantes, que o transformam novamente em ondas sonoras audíveis.

Ou seja:
👉 sulco → vibração → eletricidade → som.

🔊 Estéreo no vinil

O vinil consegue reproduzir som estéreo porque os sulcos têm paredes inclinadas em ângulos diferentes.
Cada lado do sulco carrega informações separadas para o canal esquerdo e direito, criando a sensação de espaço e profundidade sonora.

❤️ Por que o som do vinil é tão especial?

Muitas pessoas descrevem o som do vinil como mais quente, natural e encorpado. Isso acontece porque:

  • Não há conversão digital

  • Pequenas imperfeições adicionam caráter ao som

  • A resposta sonora preserva nuances originais da gravação

Além disso, o ritual de colocar o disco, limpar a superfície e baixar a agulha cria uma experiência emocional única.

📜 Um pouco de história

O princípio do disco gravado mecanicamente tem raízes nos experimentos de Thomas Edison, no fim do século XIX.
Com o passar das décadas, o disco de vinil se consolidou como padrão musical até o surgimento do CD e, mais tarde, do áudio digital — mas nunca deixou de ser amado.

QUAL É A QUALIDADE MÁXIMA DE UM DISCO DE VINIL?


ANEDOTAS & PIADAS 30

 

DUAS CANÇÕES E UM CRIME

 Escrevo no dia 23 de março de 2025. Nesta manhã de muitas nuvens no céu de Brasília, acordei relativamente cedo para um domingo e fiz o que milhões de pessoas fazem no mundo inteiro: verifiquei mensagens e novidades das redes sociais no celular.

Mal havia começado a rolar a timeline do Twitter (que ainda não me acostumei a chamar de X) quando me deparei com uma postagem do famoso Joaquim Teixeira, fazendo um comentário elogioso sobre a música “My Mistake”, dos Pholhas (os leitores que são jovens há mais tempo certamente conhecem bem a banda paulista que fez sucesso nos anos 1970, tocando canções em inglês).

No vídeo, as legendas chamavam a atenção para a trágica letra da canção. Um lamento que em nada combina com as circunstâncias nas quais tanta gente a ouviu, às vezes dançando “de rosto colado”, nas baladas românticas da adolescência. A certa altura, diz a letra:

Eu fui mandado para a prisão (I was sent to prison)
Por ter assassinado minha esposa (For having murdered my wife)
Porque ela estava saindo com outro (Because she was living with him)
Eu perdi a cabeça e atirei nela (I lost my head and shot her)

É incrível que uma canção com essa letra tenha servido de trilha sonora para tantos romances juvenis! Mas quem prestava atenção a isso naquele tempo?
Hoje, ao ouvi-la, pensei em algo que jamais havia pensado antes: o fato de “My Mistake” fazer parte do primeiro LP dos Pholhas, “Dead Faces”, lançado em 1973, ou seja, apenas alguns anos depois que Jimi Hendrix gravou a versão mais conhecida da música “Hey Joe” (1966).

E o que uma coisa tem a ver com a outra?

Tem a ver que, enquanto “My Mistake” conta a história de um homem que está cumprindo pena, por um crime passional, a letra de “Hey Joe” consiste em um diálogo, durante o qual um dos personagens, também um homem que se diz traído, atenta igualmente contra a vida da mulher:

– Ei, Joe, aonde você vai com essa arma na mão? Ei, Joe, eu perguntei aonde você vai com essa arma na mão? (Hey Joe, where you goin’ with that gun in your hand? Hey Joe, I said, where you goin’ with that gun in your hand?)

– Eu vou atirar na minha mulher. Porque eu a peguei transando com outro homem. O que não é nada bom! (I’m goin’ down to shoot my old lady. You know I caught her messin’ ‘round with another man. Huh, and that ain’t too cool)

– Ei, Joe, eu ouvi você atirar na sua mulher! Você atirou nela! É, atirou! (Hey Joe, I heard you shot your woman down. You shot her down, down)

– Sim, eu atirei nela. Eu a peguei transando. Transando por aí. (Yes, I did, I shot her. You know I caught her messin’ ‘round. Messin’ ‘round town)

Sem dúvida, não seria nenhuma surpresa se viéssemos a saber que Hélio Santisteban teria se inspirado em “Hey Joe” para compor “My Mistake”, como uma espécie de segunda parte da história.

A relação de continuidade entre os dois enredos é plenamente viável, mesmo se considerando que, embora o personagem de “My Mistake” afirme ter sido condenado por assassinar a esposa (For having murdered my wife), o Joe de Jimi Hendrix não confessa diretamente a morte, dizendo apenas: “E eu apontei a arma para ela e atirei” (And I gave her the gun and I shot her).

É o outro personagem da trama quem diz:

– Você abateu ela, sim! (You shot her down to the ground, yeah!)

Na verdade, não é de admirar que, ao descrever sua conduta, o autor do delito o faça por meio da expressão “Eu atirei”, em vez de “Eu a matei”. Desse modo, ele evita confessar – eventualmente até para si mesmo – que tinha a intenção de matar, por mais óbvia que seja a intenção de quem aponta uma arma de fogo para alguém e aciona o gatilho.

Isso não impede, porém, que ele tenha receio de ser condenado, o que fica claro na seguinte fala do personagem:

– Nenhum carrasco vai colocar uma corda no meu pescoço. (Ain’t no hangman gonna he ain’t gonna put a rope around me).

Além disso, em ambas as canções essa resistência em confessar a intenção de praticar o crime vem seguida de uma tentativa de justificar a sua ação criminosa, alegando que o ato teria sido uma reação ao fato de ter sido traído.

ANEDOTAS & PIADAS #34